Autor: henriquesater

  • norte

    bussola

    norte
    alzira espíndola e itamar assumpção

    viajo pro sul deixando o oeste
    lá quando deixar deixo meu frete
    isso quer dizer que meu norte é este
    norte fica aí bem junto a ti
    aquilo que eu nunca perdi
    pelo norte sul nem leste oeste

    tudo que pedi tu já me deste
    mas meu amor é que acontece
    que em volta tudo cresce
    a cada dia o sol nasce

    morre, nasce
    morre, nasce.

  • a inspiração vem de onde?

    inspiracao

    Pergunta para mim alguém
    Respondo talvez de longe
    De avião barco ou bonde?
    Vem com meu bem de Belém
    Vem com você neste trem
    Das entrelinhas de um livro
    Da morte de um ser vivo
    Das veias de um coração
    Vem de um gesto preciso
    Vem de um amor vem do riso
    Vem por alguma razão
    Vem pelo sim pelo não

    itamar assumpção e alzira espíndola

    na voz de ney matogrosso e pedro luis

     

  • lágrimas para as cebolas

    7706248242_ca5252f0ef_z(foto: mackincheese)

     

    alma de papoula

    lágrimas
    para as cebolas

    dez dedos de fada

    caralho
    de novo cheirando a alho

    alice ruiz

     

  • Entre cão e lobo

    lobo

    Entre cão e lobo

    Olga Orozco | Tradução: Henrique Sater

    Clausuram-me em mim.
    Dividem-me em dois.
    Engendram-me cada dia na paciência
    e um negro organismo ruge como o mar.
    Me recortam depois com as tesouras do pesadelo
    e caio neste mundo com metade do meu sangue de cada lado:
    uma cara recortada até o fundo pelos caninos da fúria
    e outra que se dissolve entre a nuvem das grandes manadas.
    Não consigo saber quem é o senhor aqui.
    Troco minha pele de cão para lobo.
    Eu decreto a peste e atravesso com meus flancos em chamas das planícies do porvir e do passado;
    eu tendo a roer os ossos de tantos sonhos mortos entre pastos celestes.
    Meu reino está na minha sombra e vai comigo onde quer que eu vá,
    ou se arruína com as portas abertas para a invasão do inimigo.
    Cada noite eu destroço em dentadas todos os laços atados ao coração,
    e cada amanhecer me encontro com minha jaula de obediência no lombo.
    Se devoro meu deus, uso seu rosto debaixo da minha máscara
    E todavia só bebo no bebedouro dos homens um doce veneno de piedade que raspa minhas entranhas
    Trabalhei na competição das telas cruzadas da tapeçaria:
    ganhei meu bastão de besta na tempestade
    e recebi também tiras de delicadeza como troféu.
    Mas: quem vence em mim?
    Quem derrota meu bastão solitário no deserto, nas fronhas do sono?
    E quem rói meus lábios, lentamente e no escuro, até meus próprios dentes?

  • parto

    parto(foto: aecoz)

    parto do princípio

    que parte da perda
    tá posta
    e a ponta da pêra
    tá podre

    mas

    se a gota de ganho
    dá gosto
    a gente congela
    o desgosto.

    Henrique Sater – 27/12/2013

  • sobre uma poesia sem pureza

    pes(Foto: Rafael Stedile)

    É muito conveniente, em certas horas do dia ou da noite, observar profundamente os objetos em descanso: as rodas que percorreram longas, poeirentas distâncias, suportando grandes cargas vegetais ou minerais, os sacos das carvoarias, os barris, as cestas, os cabos e asas dos instrumentos do carpinteiro. Deles se desprende o contato do homem e da terra como uma lição para o torturado poeta lírico. As superfícies usadas, o gasto que as mãos infligiram às coisas, a atmosfera frequentemente trágica e sempre patética destes objetos infunde uma espécie de atração não desprezível à realidade do mundo.

    A confusa impureza dos seres humanos se percebe neles, o agrupamento, uso e desuso dos materiais, as marcas do pé e dos dedos, a constância de uma atmosfera humana inundando as coisas a partir do interno e do externo.

    Assim seja a poesia que procuramos, gasta como um ácido pelos deveres da mão, penetrada pelo suor e pela fumaça, cheirando a urina e a açucena salpicada pelas diversas profissões que se exercem dentro e fora da lei.

    Uma poesia impura como um traje, como um corpo, com manchas de nutrição, e atitudes vergonhosas, com pregas, observações, sonhos, vigília, profecias, declarações de amor e de ódio, bestas, arrepios, idílios, credos políticos, negações, dúvidas, afirmações, impostos.

    A sagrada lei do madrigal e os decretos do tato, olfato, paladas, vista, ouvido, o desejo de justiça, o desejo sexual, o ruído do oceano, sem excluir deliberadamente nada, sem aceitar deliberadamente nada, a entrada na profundidade das coisas num ato de arrebatado amor, e o produto poesia manchado de pombas digitais, com marcas de dentes e gelo, roído talvez levemente pelo suor e pelo uso. Até alcançar essa doce superfície do instrumento tocado sem descanso, essa suavidade duríssima da madeira manejada pelo orgulhoso ferro. A flor, o trigo, a água têm também essa consistência especial, esse recurso de um magnífico tato.

    E não nos esqueçamos nunca da melancolia, do gasto sentimentalismo, perfeitos frutos impuros de maravilhosa qualidade esquecida, deixados de lado pelo frenético livresco: a luz da lua, o cisne ao anoitecer, “vida minha” são sem dúvida o poético elementar e imprescindível. Quem foge do mau gosto cai no gelo.

    Pablo Neruda

  • o desejo

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    não é ventania
    mas invade pela porta
     

    não tem pontaria
    onde bate me corta

     

    mesmo sem alforria
    cedo ou tarde, se solta
     

    sem desejo, eu diria:
    a pessoa tá morta.

  • amar não é

    Camisa 10

     

    Amar não é só badalar o sino.
    Amar não é só trocar os mimos.
    Amar não é só compor um hino.
    Nada impede que de vez em quando
    amar vire um destino.
    Gere meninas e meninos,
    junte trapos e pepinos…
    sopapos com tratos finos
    entrelaçando intestinos.
    Engula-se sapos e girinos
    vomitando desatinos.
    Amar não é só rimo ou não rimo.

    Itamar Assumpção – Cadernos inéditos

  • só o começo

    soocomeco

    cada dia que passa
    um pouco endureço

    parece que passa
    ou é só o começo?

    com o nada que faço
    que eu não entristeço.

    e tudo que peço
    logo me esqueço.

    na toada que caço
    só tenho tropeço.

    armado já nasço
    desejo com gesso.

    piada e trapaça
    também tem seu preço.

    estico meu braço
    não sinto que cresço.

    fumado um maço
    a mente amorteço.

    de passo em passo
    não tenho endereço.

    se não tiver graça
    eu logo esmoreço.

    se não tiver massa
    eu nem apareço.

    melhor ser com pressa
    senão anoiteço.

    só ouço desgraça
    não sei se pertenço.

    NÃO PASSA, NÃO PASSA!
    e é só o começo.

    Henrique Sater – 26/10/13

  • nenhum lugar da vida é mais triste que uma cama vazia

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    “Maria Alejandrina Cervantes, de quem dizíamos que só havia de dormir uma vez para morrer, foi a mulher mais elegante e mais terna que eu jamais conheci, e a mais completa na cama, mas também a mais severa. Tinha nascido e crescido aqui, e aqui vivia, numa casa de portas abertas com vários quartos de aluguer e um enorme pátio de baile com cabaças de luz compradas nos bazares chineses de Paramaribo. Foi ela quem estourou com a virgindade da minha geração. Ensinou-nos muito mais do que devíamos aprender, mas ensinou-nos acima de tudo que nenhum lugar da vida é mais triste do que uma cama vazia.”

    Garcia Marquez – Crônica de uma morte anunciada