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  • Que a sobre-humana poesia pica e envenena um homem.

    caran

    Deslizo,
    oculto aqui,
    vigiando o oco do tempo.
    Espaço ermo, parado.
    Nada acontece. Nada parece acontecer.
    Mas algo flui, o irremediável,
    queimando todas as pontes de regresso.
    Todo o passado está morto;
    só vige o que vem, o que surge.
    Todas as coisas íntegras dilaceram-se
    ou são dilaceradas.
    A velha senhora viajada,
    detentora de recorde de milhagens,
    temerosa das vacas do Ganges
    depois de ter contemplado um berne
    ao microscópio.
    Berne que agora corrompe e torna pútrida
    qualquer carne verde que ela vê
    pois seu olho holografa
    o esqueleto subjacente a todo corpo vivo.
    Viver em mudança.

    O assoalho repleto das peles velhas das cobras
    e do pêlo felpudo das aranhas caranguejeiras.
    Viver em mudança.
    Que a sobre-humana poesia pica e envenena um
    homem.

    Waly Salomão (1994 – Algaravias)

  • caço o que não é quieto, mas tampouco murmúrio

    12092738706_f227f4a606_zsilêncio que satura meus pensamentos
    não cessa, nem com notas nem com gritos
    silêncio que apressa meus desejos
    é traça, que rói cada um de meus ossos.

    cala-te e vá embora
    mas que não venha em seu lugar
    o som parco, pobre, pútrido.

    entre você, vazio, que me fustiga
    e o diálogo morno, moribundo
    sucumbo-me aos seus minutos infinitos.

    caço o que não é quieto, mas
    tampouco murmúrio
    o que não é parado, mas
    nem por isso mecânico.

    o que não é opaco, muito
    menos límpido,
    lúcido, lírico.

    Henrique Sater – julho/2014

  • É preciso estar silêncio pra eu não ficar aflito / Mas em mim existe um grito / Que eu não posso mais calar

    É preciso estar escuro pra eu poder dormir em paz
    Mas em mim há uma luz que não sei como apagar
    Eu canto incontido cortando o escuro
    Sexto sentido saltando o muro

    É preciso estar silêncio pra eu não ficar aflito
    Mas em mim existe um grito
    Que eu não posso mais calar
    Mundo mandala mudando o impuro
    Tempo tempero tecendo o futuro

    Lua cheia na varanda
    Rio da mente deslizar
    Ai estrelas me respondam
    Como eu posso descansar

    Sexto Sentido – Itamar Assumpção

  • Por que a poesia de rabo preso sem poder se operar e, operada, polimórfica e perversa, não pode travestir-se?

    Exterior – Waly Salomão

    Por que a poesia tem que se confinar?
    às paredes de dentro da vulva do poema?
    Por que proibir à poesia
    estourar os limites do grelo
    da greta
    da gruta
    e se espraiar além da grade
    do sol nascido quadrado?

    Por que a poesia tem que se sustentar
    de pé, cartesiana milícia enfileirada,
    obediente filha da pauta?
    Por que a poesia não pode ficar de quatro
    e se agachar e se esgueirar
    para gozar
    – carpe diem! –
    fora da zona da página?

    Por que a poesia de rabo preso
    sem poder se operar
    e, operada,
    polimórfica e perversa,
    não pode travestir-se
    com os clitóris e balangandãs da lira?

  • Eu queria ser demente na varanda de meu pai mijar nas flores, sorrir da lua como um louco

    http://farm5.static.flickr.com/4135/4853607904_a5b6402ce6.jpg

    (Carlos Carah – ilustração)

    Anima – José Carlos Capinam

    Existe uma menina onde meu coração é doce

    Voz marítma selvagem eu guardo

    o hálito da vítima o branco vestido e o traço

    do rosto dramático, dela

    do outro

    e do meu um pedaço. (mais…)

  • mixtape 30 – 24/6/14

    capa

    Clique aqui para baixar o arquivo

    Quedas e Curvas João Nogueira Boca do Povo 1 1980 Samba 01. Quedas e Curvas.mp3
    Subúrbio Chico Buarque Carioca 2 2006 MPB 02. Subúrbio.mp3
    Caminho de Volta Memórias de um Caramujo Cheio de Gente 3 2014 MPB 03. Caminho de Volta.mp3
    P.C.J. (Partido Clementina de Jesus) Clara Nunes As Forças da Natureza 4 1977 MPB 04. P.C.J. (Partido Clementina de Jesus).mp3
    Vivo isolado no mundo – Amor não é brinquedo Candeia Axé! Gente Boa do Samba 5 1978 MPB 05. Vivo isolado no mundo – Amor não é brinquedo.mp3
    Verde Eliete Negreiros Canção Brasileira – A Nossa Bela Alma 6 1992 MPB 06. Verde.mp3
    08-Sucrilhos Criolo Nó na Orelha 7 2011 Brasil 07. 08-Sucrilhos.mp3
    Brasil Mulato Martinho da Vila Martinho da Vila 8 1969 MPB 08. Brasil Mulato.mp3
    Esta melodia Clementina de Jesus Clementina de Jesus 9 1966 MPB 09. Esta melodia.mp3
    Maldito Rádio (Ao Vivo) Adriana Calcanhotto Olhos de Onda (Ao Vivo) – 11 2014 MPB 11. Maldito Rádio (Ao Vivo).mp3
    Pago Pra Ver (Ao Vivo) Zeca Pagodinho Zeca Pagodinho – Acústico MTV 11 2002 Samba 11. Pago Pra Ver (Ao Vivo).mp3
    Água de Chuva No Mar Beth Carvalho Pagode de Mesa 2 – Ao Vivo 12 2001 Pop 12. Água de Chuva No Mar.mp3

  • meu ar de dominador dizia que eu ia ser seu dono

    Meu ar de dominador dizia que eu ia ser seu dono

    E nessa eu dancei! Hoje no universo

    Nada que brilha cega mais que seu nome

    Fiquei mudo ao lhe conhecer, o que vi foi demais, vazou

    Por toda selva do meu ser, nada ficou intacto

    Quem não tem pra quem se dar, o dia é igual à noite

    Tempo parado no ar, há dias, calor, insônia, oh! noite

    Quem ama vive a sonhar de dia, voar é do homem

    Vida foi feita pra estar em dia, com a fome, com a fome, com a fome

    Minha vida por inteiro eu lhe dou

    Minha vida por inteiro eu lhe dou –

    Djavan

    http://grooveshark.com/s/Boa+Noite/3noVZJ?src=5

  • há uns olhos além da frágil realidade

    Texto

    Afonso Henriques Neto – disponível aqui

    Oh espina clavada en el hueso
    hasta que se oxiden los planetas
    FEDERICO GARCÍA LORCA

    O texto, escura escama, pesadelo de eternidade,
    máscara densa do universo vomitando.
    O texto, mas não a energia que o pensou,
    interrogando a simultaneidade absoluta.
    Há uma esperança nas ruas, nas pedras, no acaso
    de tudo, uma esperança, uma forma suspensa
    entre o aparente e a essência, entre o que vemos
    e a substância, uma esperança, uma certeza talvez
    de que o rio não se dissolva no mar, de que
    o ínfimo, o precário, a voz, a sombra,
    o estalar das carnes na explosão
    não se dispersem no todo, impensável medusa da inexistência.
    Há uma luz qualquer sonhando integração, o suposto
    destino dos ventos, das energias globais, a suposta
    sabedoria com que o homem fecundou a crosta
    envenenada do planeta, há uma luz qualquer
    ensaiando águas pensadas no eterno esvair-se,
    abstrato expansionário, há uns olhos além
    da frágil realidade, da terrível matança, da
    cruel carnificina entre seres pestilentos aquém
    da fronteira do sonho, um texto além do texto,
    uma esperança talvez, enquanto somos e nos cumprimos,
    enquanto somos e nos oxidamos, enquanto
    somos e prosseguimos.

  • “um poeta não se faz com versos”

    o poeta se faz do sabor
    de se saber poeta
    de não ter direito a outro ofício
    de se achar de real utilidade pública
    no cumprimento de sua missão sobre a terra
    escrevendo tocando criando
    o que pesa é não se achar louco
    patético quixote inútil
    como quem fala sozinho
    como quem luta sozinho
    o que pesa é ter que criar
    não a palavra
    mas a estrutura onde ela ressoe
    não o versinho lindo
    mas o jeitinho dele ser lido por você
    não o panfleto
    mas o jeito de distribuir
    quanto a você meu camarada
    que à noite verseja pra de dia
    cumprir seu dever como água parada
    fica aqui uma sugestão:
    – se engaveta junto com os seus sonetos
    porque muito sangue vai rolar e não
    fica bem você manchar tão imaculadas páginas.

    Ricardo de Carvalho Duarte, ou Chacal