Autor: henriquesater

  • Sonhos

    “Mas não tem revolta não
    Eu só quero que você se encontre
    Saudade até que é bom
    É melhor que caminhar vazio
    A esperança é um dom
    Que eu tenho em mim, eu tenho sim
    Não tem desespero não
    Você me ensinou milhões de coisas
    Tenho um sonho em minhas mãos
    Amanhã será um novo dia
    Certamente eu vou ser mais feliz”

    Peninha

  • Pesadelo

    Quando o muro separa uma ponte une
    Se a vingança encara o remorso pune
    Você vem me agarra, alguém vem me solta
    Você vai na marra, ela um dia volta

    E se a força é tua ela um dia é nossa
    Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
    Que medo você tem de nós, olha aí

    Você corta um verso, eu escrevo outro
    Você me prende vivo, eu escapo morto

    (…)

    Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro

  • mosaicos de existência

    Duas costuras de mosaicos de existência
    Ali repousavam lado a lado.

    Sob estrutura vil, a primeira parecia regojizar-se
    através de seu busto perfeitamente lapidado.
    A música de Schubert acalmava-lhe os espíritos;
    o óleo ainda fresco transparecia cores cuidadosamente escolhidas.
    O grande caixão comportava seu pequenino corpo
    Que os poucos dias não permitiram que se desenvolvesse
    O grande cerimonial não comportava o pequenino espaço
    Que os muitos músicos não permitiam que ninguém passasse.

    Num minúsculo canto, a segunda parecia à vontade
    através de suas rugas assimetricamente esculpidas.
    O ruído daqueles instrumentos era deveras incômodo
    um gigantesco quadro parecia um carnaval abstrato demais
    O pequenino caixão mal comportava seu grande corpo
    Que duros anos permitiram que perecesse.
    O cerimonial ainda estava por existir no espaço
    Que só três ônibus até lá permitiam que algum familiar chegasse.

    Subitamente, um discurso se pronunciou.
    “A vida é curta, a arte é longa” – dizia, um senhor bem vestido.
    Olhando profundamente nos olhos dos presentes.
    Prantos melancólicos e desesperados.

    Do pequeno canto, o outro mosaico.
    Sentia a vida dos presentes.
    Procurando a arte que não sente.
    Preso na memória dos por vir
    Presos pelas amarras do presente.

    Henrique Sater – 14/10/2010

  • Por ora

     

    Cada não dado por hora
    é só o calor do vão do agora
    é o não sei falado por ora
    travestido de contraposição que agoura
    mas muito de nada se vê ali fora
    e aqui dentro onde mora
    quero manter-me como tora
    queimar-me na chama da aurora
    beijar-lhe onde sei que adora
    porque dali algum tempo do agora
    um segundo, um minuto, uma hora
    sem a raiva que me agoura
    o aval te darei por ora
    onde sei que razão não mora
    onde sabia nada haver aqui fora
    dura e inquebrável feito tora
    quente e ofuscante como aurora
    vem a nova verdade
    vem a nova idéia
    que sem você não teria
    e agora não te tenho, queria
    porém só me sobra
    a idéia nova
    colada na aurora
    que nem em mim, nem em você
    nem nela mesmo
    mora
    morre por ora
    morre por agora
    mas certamente não é ela
    que agora
    chora.

    Henrique Sater – 9/6/2012

  • Diarréia

    Cago-me e nem mais sinto
    Purgam-me e eu consinto.
    Só peço que não seja mais com a ciência.

    Que eu possa sentir o esterco
    E não mais os íons dos slides

    Não se incomodam que tanto churume
    já não me deixe nem ouvir.

    Contanto que meus olhos estejam abertos
    e meu jaleco sem manchas de merda.

    Henrique Sater – 04/09/2011

  • Fluoxetina

    Os olhos transbordam
    e o horizonte distante
    parece tão cinza
    que os olhos verdes
    transbordam distantes.

    O mar que era verde
    transborda de cinzas
    e os olhos distantes
    parecem tão cinzas
    tão sem horizonte.

    Os olhos já cinzas
    e o mar no horizonte
    ficam tão verdes
    que o sorriso constante
    nos olhos transbordam
    a próxima dose
    e o horizonte distante.

    Henrique Sater – 14/9/2011

  • Vida Relógio

    Vida que escorre pelas mãos
    chega ao ponteiro das horas
    imiscui-se até o marco dos minutos
    tece o registro frágil dos segundos
    e debruça-se sobre cada estalada.

    Até que zera e dispara seu alarme.

    Tentam trocar-lhe a bateria
    e disparar-lhe cada badalada.

    Já não parece mais nada do que era
    porém insistem em girar-lhe cada volta
    dar-lhe das sessenta o minuto
    e suspirar-lhe mais sessenta em uma hora.

    Quando, já escorrido quase tudo,
    foi-se o alarme, o alerta e a música
    marca apenas segundo por segundo.

    Henrique Sater (05 de janeiro de 2012)

  • Pouco

    Doze horas por dia sou médico
    oito horas por dia sou sono
    quatro horas que sobram sou pouco
    pouco que discute mas não aplica
    pouco que aplica e só estuda
    pouco que estuda o que discute
    mas pouco sente que algo muda.

    Metade do dia que examino
    meu âmago corrompe o olhar intruso
    os óculos do normal escondo, mas uso
    hoje doutor, outrora menino
    se quebro a lente, então me entrego
    não mais menino, adulto cego.

    Doze horas por dia sou míope
    oito horas por dia sou mudo
    quatro horas que sobram sou louco
    entre livros de outro tempo
    e óculos deste mundo
    empilhados no mesmo criado mudo.

    Henrique Sater – 05/03/2012

  • Cautela

    (Millor)

    Se não te cuidares o corpo
    Cuida teu espírito torto
    Que teu corpo jaz perfeito

    Se não te cuidares o peito
    Cuida teu olho absurdo
    Que teu peito tomba morto
    Diante de tudo

    Se não te cuidares, cuidado
    Com as armadilhas do ar
    Qualquer solto som pode dar tudo errado

    Paulo Cesar Pinheiro