Categoria: Poemas

  • Lento mas vem…

    Lento mas vem

    o futuro se aproxima

    devagar

    mas vem

    hoje está mais além

    das nuvens que escolhe

    e mais além do trovão

    e da terra firme

    demorando-se vem

    qual flor desconfiada

    que vigia ao sol

    sem perguntar-lhe nada

    iluminando vem

    as últimas janelas

    lento mas vem

    o futuro se aproxima

    devagar

    mas vem

    já se vai aproximando

    nunca tem pressa

    vem com projetos

    e sacos de sementes

    com anjos maltratados

    e fiéis andorinhas

    devagar mas vem

    sem fazer muito ruído

    cuidando sobretudo

    os sonhos proibidos

    as recordações dormidas

    e as recém-nascidas

    lento mas vem

    o futuro se aproxima

    devagar

    mas vem

    já quase está chegando

    com sua melhor notícia

    com punhos com olheiras

    com noites e com dias

    com uma estrela pobre

    sem nome ainda

    lento mas vem

    o futuro real

    o mesmo que inventamos

    nos mesmos e o acaso

    cada vez mais nós mesmos

    e menos o acaso

    lento mas vem

    o futuro se aproxima

    devagar

    mas vem

    lento mas vem

    lento mas vem

    lento mas vem

    Mario Benedetti

  • Uma questão de viagem

    Should we have stayed at home wherever that may be?[1]E não aqui onde o tempo paira e finge repousar-se onde o tempo sonso desata o mau momento quando a carícia distrai o sobressalto e o pranto é mudo e se conhece inútil?

    Should we have stayed at home wherever that may be? E não aqui ao relento da memória no sereno do olvido no espanto do que nasce na bacia das almas nos frascos de remédio nas dores automáticas nas frases circunspectas nos solilóquios patéticos?

    Should we have stayed at home wherever that may be? E não aqui ondeo anonimato das ruas oprime a conversa que ata e desata na primeira pessoa e o tempo não voa suspenso no beco nem mais nem menos ao sopro dos afetos?

    E a mercê dos adjetivos dos sentimentos das metáforas do ridículo das metáforas e da autocomplacência e do tempo que não ata nem desata e do beco suspenso nas doces circunstâncias e das virtudes inúteis ou úteis do orgulho da modéstia e da simpatia anônima? Should we have stayed at home wherever that may be enão aqui na primeira pessoa na primeira pessoa?

    Sabe-se lá.
    [1] Teria sido melhor ficar em casa, onde quer que isso seja?“Questões de viagem”, Elizabeth Bishop (Tradução: Paulo Henriques Brito).

    http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-71/poesia/uma-questao-de-viagem

  • Anestesiado

    Primeiro a hipnose
    leite cândido escorre nas veias
    encontra neuroses
    traz paz profunda
    abismos em picos delirantes
    sólidos vazios cheios de sono.

    Segundo a alucinação
    ópio legalizado em minhas entranhas
    me alcança no abismo
    fulgaz alegria descontrolada
    insights em flashes eufóricos
    voláteis ácidos vazios de dor.

    Enfim a paralisia
    veneno curarizado inunda as fibras
    persegue meu vôo
    mordaz êxito compulsório
    golpes em músculos fundantes
    paréticos dardos sem movimento.

    Dão-me o sono
    rápido tiram
    alucinam-me
    e logo congelam
    cadáver vivo
    morte controlada
    veneno posológico
    sem overdose.

    Não é preciso mais cirurgias
    para desfrutar de tal movimento.
    Basta um corpo quente
    e um espírito escaldado.
    Logo conhece-se o sono
    atinge-lhe o vazio
    ignora-se a dor
    e súbito se reconhece
    anestesiado
    paralítico
    estático
    com todas as seringas intactas.

    Henrique Sater –  11/9/2012

  • Trágica válvula

    Cada dia ao lado
    a tua presença
    a nossa presença
    nada emergente
    válvula de segurança
    nunca acionada
    amor não perecível
    rotina amarrada:
    as escovas de dente
    a roupa lavada
    o uso irracional de papel higiênico
    o sabonete da genitália
    os filmes das genitálias
    os filmes (sem genitálias)
    e a dificuldade de escolhê-los
    a janta enlatada
    o chegar de madrugada
    e a raiva do alarme porvir
    o atraso em minutos
    e a espera com surtos
    o café de anteontem
    a louça da noite
    a insônia forçada
    o alarme atrasado
    as escovas de dente.

    Rotina amarrada
    rotina forçada
    procura um sorriso
    encontra um pedido
    procura um conforto
    não entende a piada
    procura um abraço
    ganha e não cura
    procura a paixão
    encontra nas fotos
    esquece dos gestos
    mas nunca dos pratos
    mas nunca dos fatos
    esta conversa
    nada emergente
    aquele jardim
    precisa da gente
    a fruta na sala
    do dia seguinte
    perece primeiro
    mas ela não sente
    já o nosso amor
    espera, mas mente
    que nunca dará
    a última volta
    que acionará
    a trágica válvula
    que separará
    as escovas de dente.

    Henrique Sater 30/5/2012

  • tic-tac da dialética


    a cada segundo
    o segundo me passa
    no momento que pára
    o ponteiro me olha
    eu rápido calo
    e o segundo retoma
    meu olhar que era dele
    agora se embaça
    mais uma vez
    pa
    ssa
    pá
    ra
    pa
    ssa
    e a cada parada
    me olha contente
    achando que engana
    quem acha que pára

    mesmo se viro
    sei que não pára
    a cada estalada
    pausa no nada
    e o nada se move
    quando retoma
    acha que anda
    e eu tenho certeza
    que mesmo parado
    anda-e-não-anda
    no-nada-des-anda.

    Henrique Sater
    23/8/2012

  • Walking Around

    (Pablo Neruda)

    Acontece que me canso de ser homem.
    acontece que entro nas alfaiatarias e nos cinemas
    murcho, impenetrável, como um cisne de feltro
    navegando numa água de origem cinza.

    O cheiro das barbearias me faz chorar aos gritos.
    Só quero um descanso de pedras ou de lã,
    só quero não ver mais estabelecimentos ou jardins,
    nem mercadorias, nem óculos, nem elevadores.

    Acontece que me canso dos meus pés e das minhas unhas
    e do meu cabelo e da minha sombra.
    Acontece que me canso de ser homem.

    No entanto seria delicioso
    assustar um notário com um lírio cortado
    ou dar a morte a uma freira com um golpe de orelha.
    seria belo
    ir pelas ruas com um punhal verde
    e dando gritos até morrer de frio.

    Não quero continuar sendo raiz nas trevas,
    vacilante, estendido, tiritando de sono
    para baixo, nas tripas molhadas da terra,
    absorvendo e pensando, comendo cada dia.

    Não quero para mim tantas desgraças.
    não quero continuar de raiz e túmulo,
    de subterrâneo solitário, de adega com mortos,
    inteiriçado, morrendo de aflição.

    Por isso a segunda-feira arde como o petróleo
    quando me vê chegar com a minha cara de prisão,
    e uiva no seu transcurso como roda ferida,
    e dá passos de sangue quente em direção à noite.

    E me empurra para certos recantos, para certas casas úmidas,
    para hospitais de onde os ossos saem pela janela,
    para certas sapatarias com cheiro de vinagre,
    para ruas horríveis como gretas.

    Há pássaros cor de enxofre e horríveis intestinos
    pendurados nas portas das casas que odeio, há
    dentaduras esquecidas numa cafeteira,
    há espelhos,
    que deviam ter chorado de vergonha e espanto,
    há guarda-chuvas por todas as partes, e venenos e umbigos.

    Eu passeio com calma, com olhos, com sapatos,
    com fúria, com esquecimento,
    passo, cruzo escritórios e lojas de ortopedia,
    e pátios onde há roupas penduradas num arame:
    cuecas, toalhas e camisas que choram
    lentas lágrimas sujas.

  • Olho de lince

    Quem fala que sou esquisito hermético
    É porque não dou sopa estou sempre elétrico
    Nada que se aproxima nada me é estranho
    Fulano sicrano e beltrano
    Seja pedra seja planta seja bicho seja humano
    Quando quero saber o que ocorre a minha volta
    Ligo a tomada abro a janela escancaro a porta
    Experimento tudo nunca me iludo
    Quero crer no que vem por ao beco escuro
    Me iludo passando presente futuro
    Revir na palma da mão o dado
    Presente futuro passado
    Tudo sentir de todas as maneiras
    É a chave de ouro do meu jogo
    De minha mais alta razão
    Na seqüência de diferentes naipes
    Quem fala de mim tem paixão.

  • Razões adicionais para os Poetas mentirem

    Porque o momento
    no qual a palavra feliz
    é pronunciada,
    jamais é o momento feliz.
    … Porque quem morre de sede
    não pronuncia sua sede
    Porque na boca da classe operária
    não existe a palavra classe operária.
    Porque quem desespera
    não tem vontade de dizer:
    “Sou um desesperado”.
    Porque orgasmo e orgasmo
    não são conciliáveis.
    Porque o moribundo em vez de alegar:
    “Estou morrendo”
    só deixa perceber um ruído surdo
    que não compreendemos.
    Porque são os vivos
    que chateiam os mortos
    com suas notícias catastróficas.
    Porque as palavras chegam tarde demais,
    ou cedo demais
    Porque, portanto,
    é sempre um outro,
    sempre um outro
    quem fala por aí,
    e porque aquele
    do qual se fala
    se cala.

    HANS MAGNUS ENZENSBERGER

  • Pesadelo

    Quando o muro separa uma ponte une
    Se a vingança encara o remorso pune
    Você vem me agarra, alguém vem me solta
    Você vai na marra, ela um dia volta

    E se a força é tua ela um dia é nossa
    Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
    Que medo você tem de nós, olha aí

    Você corta um verso, eu escrevo outro
    Você me prende vivo, eu escapo morto

    (…)

    Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro

  • mosaicos de existência

    Duas costuras de mosaicos de existência
    Ali repousavam lado a lado.

    Sob estrutura vil, a primeira parecia regojizar-se
    através de seu busto perfeitamente lapidado.
    A música de Schubert acalmava-lhe os espíritos;
    o óleo ainda fresco transparecia cores cuidadosamente escolhidas.
    O grande caixão comportava seu pequenino corpo
    Que os poucos dias não permitiram que se desenvolvesse
    O grande cerimonial não comportava o pequenino espaço
    Que os muitos músicos não permitiam que ninguém passasse.

    Num minúsculo canto, a segunda parecia à vontade
    através de suas rugas assimetricamente esculpidas.
    O ruído daqueles instrumentos era deveras incômodo
    um gigantesco quadro parecia um carnaval abstrato demais
    O pequenino caixão mal comportava seu grande corpo
    Que duros anos permitiram que perecesse.
    O cerimonial ainda estava por existir no espaço
    Que só três ônibus até lá permitiam que algum familiar chegasse.

    Subitamente, um discurso se pronunciou.
    “A vida é curta, a arte é longa” – dizia, um senhor bem vestido.
    Olhando profundamente nos olhos dos presentes.
    Prantos melancólicos e desesperados.

    Do pequeno canto, o outro mosaico.
    Sentia a vida dos presentes.
    Procurando a arte que não sente.
    Preso na memória dos por vir
    Presos pelas amarras do presente.

    Henrique Sater – 14/10/2010