Categoria: Poemas

  • Por ora

     

    Cada não dado por hora
    é só o calor do vão do agora
    é o não sei falado por ora
    travestido de contraposição que agoura
    mas muito de nada se vê ali fora
    e aqui dentro onde mora
    quero manter-me como tora
    queimar-me na chama da aurora
    beijar-lhe onde sei que adora
    porque dali algum tempo do agora
    um segundo, um minuto, uma hora
    sem a raiva que me agoura
    o aval te darei por ora
    onde sei que razão não mora
    onde sabia nada haver aqui fora
    dura e inquebrável feito tora
    quente e ofuscante como aurora
    vem a nova verdade
    vem a nova idéia
    que sem você não teria
    e agora não te tenho, queria
    porém só me sobra
    a idéia nova
    colada na aurora
    que nem em mim, nem em você
    nem nela mesmo
    mora
    morre por ora
    morre por agora
    mas certamente não é ela
    que agora
    chora.

    Henrique Sater – 9/6/2012

  • Diarréia

    Cago-me e nem mais sinto
    Purgam-me e eu consinto.
    Só peço que não seja mais com a ciência.

    Que eu possa sentir o esterco
    E não mais os íons dos slides

    Não se incomodam que tanto churume
    já não me deixe nem ouvir.

    Contanto que meus olhos estejam abertos
    e meu jaleco sem manchas de merda.

    Henrique Sater – 04/09/2011

  • Fluoxetina

    Os olhos transbordam
    e o horizonte distante
    parece tão cinza
    que os olhos verdes
    transbordam distantes.

    O mar que era verde
    transborda de cinzas
    e os olhos distantes
    parecem tão cinzas
    tão sem horizonte.

    Os olhos já cinzas
    e o mar no horizonte
    ficam tão verdes
    que o sorriso constante
    nos olhos transbordam
    a próxima dose
    e o horizonte distante.

    Henrique Sater – 14/9/2011

  • Vida Relógio

    Vida que escorre pelas mãos
    chega ao ponteiro das horas
    imiscui-se até o marco dos minutos
    tece o registro frágil dos segundos
    e debruça-se sobre cada estalada.

    Até que zera e dispara seu alarme.

    Tentam trocar-lhe a bateria
    e disparar-lhe cada badalada.

    Já não parece mais nada do que era
    porém insistem em girar-lhe cada volta
    dar-lhe das sessenta o minuto
    e suspirar-lhe mais sessenta em uma hora.

    Quando, já escorrido quase tudo,
    foi-se o alarme, o alerta e a música
    marca apenas segundo por segundo.

    Henrique Sater (05 de janeiro de 2012)

  • Pouco

    Doze horas por dia sou médico
    oito horas por dia sou sono
    quatro horas que sobram sou pouco
    pouco que discute mas não aplica
    pouco que aplica e só estuda
    pouco que estuda o que discute
    mas pouco sente que algo muda.

    Metade do dia que examino
    meu âmago corrompe o olhar intruso
    os óculos do normal escondo, mas uso
    hoje doutor, outrora menino
    se quebro a lente, então me entrego
    não mais menino, adulto cego.

    Doze horas por dia sou míope
    oito horas por dia sou mudo
    quatro horas que sobram sou louco
    entre livros de outro tempo
    e óculos deste mundo
    empilhados no mesmo criado mudo.

    Henrique Sater – 05/03/2012

  • Cautela

    (Millor)

    Se não te cuidares o corpo
    Cuida teu espírito torto
    Que teu corpo jaz perfeito

    Se não te cuidares o peito
    Cuida teu olho absurdo
    Que teu peito tomba morto
    Diante de tudo

    Se não te cuidares, cuidado
    Com as armadilhas do ar
    Qualquer solto som pode dar tudo errado

    Paulo Cesar Pinheiro

  • A quem já pôde amar

    Desfruta enquanto ama, homem
    pois de pão e água sobrevivem
    mas no teto do amor não dormem
    são tristes: todos que acham que vivem.

    Desfruta enquanto podes, tolo
    já que de matéria se faz teu corpo, teu intestino
    mas de mais se faz teu miolo
    e é dele todo teu destino.

    Quem já pôde amar que o diga
    mas fale sob juramento
    que não há quem alguém infinitamente siga
    senão aquele que ama, seja ou não por sacramento.

    Ama, tolo homem, a todo momento
    enquanto tal sorte é te dada por ora
    pois eterno é o teu sentimento
    mas por quanto tempo serás quem és agora?

    Henrique Sater – 30/12/2010

  • Pneumonia

    Opaco do lado do coração
    como um caroço amarrado
    sertão com febre, o corpo fraco
    cutuca o peito até que quebre.

    O ar me tira, respiro a chama
    A mira vã que a cura espera
    O sol que queima, a boca seca
    seca e derrama, a mente pira.

    A sina torpe, me chama à cama
    Tira meu sono, me dá a lã
    A luz escura perturba o sonho
    me alucina, idéia sã.

    Carnificina: o peito inflama
    embebe o sangue, se dissemina
    briga de humores, sem ter um dono
    me mata um pouco, mas tira as dores.

    Henrique Sater – 23/05/2012

  • Sono

     

    (dedicado à Thais)

    Assume a forma de minhas pálpebras
    e nelas pesa cada piscar
    se cada vez que cerro os olhos
    já não garanto o próximo olhar
    enterro o mar do pensamento
    e adentro o chão que voa e some
    me perco e encontro sala sem centro
    me escondo e ouço: ouvido aberto
    vozes que insistem na luz sumida
    cabeça pesa, parece ferro
    quero acordar, estou bem perto
    encerro o sonho, recorro à fala
    sentido quero mas não vislumbro
    e cerro os olhos sem novo olhar.
    Já não garanto.
    Já não garanto.
    Já não…
    Já…

    Henrique Sater – 24/05/2012