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  • Das novas idéias

    “A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietude a constância.” Assim Machado de Assis descreveu o vento. Mário Quintana aproveitou e aplicou-a aos poetas.

    Dispersão e inquietude são características geralmente pejorativas. Principalmente, em dias que se espera concentração e serenidade. Não concentração opcional, concentração apenas naquilo que é importante. Não serenidade atingida, serenidade apenas necessária e involuntária.

    Espera-se da poesia que se limite ao registro de sentimentos, espera-se do vento que se limite à brisa fresca.

    Esquecemos do poder de novas palavras, ou ainda, do poder de velhas palavras em novos lugares. Mas novos lugares às vezes são inatingíveis com brisas frescas, são inatingíveis com tanta concentração, tanta serenidade.

    Dispersos e inquietos, encontraremos as novas palavras e os novos lugares. E novas palavras em novos lugares, por mais desacostumados que estejamos, são NOVAS IDÉIAS.
    Quem nos dá o direito de ter novas idéias? Nem nós mesmos, quando nos forçamos à autocrítica por estarmos “sonhando demais”. Quando insistimos em tê-las, somos duramente inibidos pela mecanização e imposição das idéias antigas.

    Mas de que adiantas as idéias, sem homens e mulheres para pô-las em prática? De que adiantam a dispersão e a inquietude, sem a unidade e a constância?

    Exploremos a constância de nossa unidade, aproveitando novos ventos para conhecer e por em práticas as novas palavras. As novas idéias.

    Henrique Sater – 03/02/2010

  • A quem já pôde amar

    Desfruta enquanto ama, homem
    pois de pão e água sobrevivem
    mas no teto do amor não dormem
    são tristes: todos que acham que vivem.

    Desfruta enquanto podes, tolo
    já que de matéria se faz teu corpo, teu intestino
    mas de mais se faz teu miolo
    e é dele todo teu destino.

    Quem já pôde amar que o diga
    mas fale sob juramento
    que não há quem alguém infinitamente siga
    senão aquele que ama, seja ou não por sacramento.

    Ama, tolo homem, a todo momento
    enquanto tal sorte é te dada por ora
    pois eterno é o teu sentimento
    mas por quanto tempo serás quem és agora?

    Henrique Sater – 30/12/2010

  • Pneumonia

    Opaco do lado do coração
    como um caroço amarrado
    sertão com febre, o corpo fraco
    cutuca o peito até que quebre.

    O ar me tira, respiro a chama
    A mira vã que a cura espera
    O sol que queima, a boca seca
    seca e derrama, a mente pira.

    A sina torpe, me chama à cama
    Tira meu sono, me dá a lã
    A luz escura perturba o sonho
    me alucina, idéia sã.

    Carnificina: o peito inflama
    embebe o sangue, se dissemina
    briga de humores, sem ter um dono
    me mata um pouco, mas tira as dores.

    Henrique Sater – 23/05/2012

  • Sono

     

    (dedicado à Thais)

    Assume a forma de minhas pálpebras
    e nelas pesa cada piscar
    se cada vez que cerro os olhos
    já não garanto o próximo olhar
    enterro o mar do pensamento
    e adentro o chão que voa e some
    me perco e encontro sala sem centro
    me escondo e ouço: ouvido aberto
    vozes que insistem na luz sumida
    cabeça pesa, parece ferro
    quero acordar, estou bem perto
    encerro o sonho, recorro à fala
    sentido quero mas não vislumbro
    e cerro os olhos sem novo olhar.
    Já não garanto.
    Já não garanto.
    Já não…
    Já…

    Henrique Sater – 24/05/2012

  • Apnéia*

    Tento parar um segundo
    sentir que resisto sem ar
    no fundo já sei que um misto
    de mim no mundo se esvai
    e insisto a cada suspiro
    profundo ou não, que já sai.

    Tento ficar neste mundo
    sorrir mesmo sem paz
    imundo, sigo e insisto
    no ouvido um coro de ais
    um misto de dor e absurdo.

    Um segundo foi pouco demais.

    Henrique Sater – 16/5/2012


    *Apneia designa a suspensão voluntária ou involuntária da respiração, ou a interrupção da comunicação do ar atmosférico