dez 072014
 

 

sorrisoA RAZÃO DO POEMA

Prometi nunca render-me
ao verso fácil.
À poesia-nuvem
fluida substância sem contorno.
Não fuja do meu sangue o verso vago,
alheio ao barro amargo do Tempo.

Eu quis o gume,
a aresta,
o vinco.

Recusei o lírio
das feiras semanais das flores mortas.

Eu quero um poema-dor,
arrancado aos pedaços
da carne da vida.
Aqui está ele
sangrando meus dedos
no cimento da cela.

A poesia não marca hora.
Hoje, como há trinta anos,
está nos jornais.
Foi pisada,
cuspida,
torturada:
contra todas as formas de morte
floresce.

Eu a encontrei num dia de chuva,
durante o combate.
Trazia um vento de Liberdade na boca
e a metralhadora nas mãos.

Ensinou-me o fogo
e a palavra.
Lavrou-me nos pés o roteiro
dos caminhos que percorrerei:

nenhuma dor visite a cada de meu irmão
sem se fazer lágrima nos meus olhos.
Nenhuma investida dos cavaleiros da morte
será silenciada.
E se vier a tortura, ou a morte,
a marcha para o sol reuniá
os pedaços dispersos do meu corpo…
E o canto do Povo sobre a cidade aberta
não me surpreenderá adormecido.

Pedro Tierra – A palavra contra o muro

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