Categoria: Poemas

  • caço o que não é quieto, mas tampouco murmúrio

    12092738706_f227f4a606_zsilêncio que satura meus pensamentos
    não cessa, nem com notas nem com gritos
    silêncio que apressa meus desejos
    é traça, que rói cada um de meus ossos.

    cala-te e vá embora
    mas que não venha em seu lugar
    o som parco, pobre, pútrido.

    entre você, vazio, que me fustiga
    e o diálogo morno, moribundo
    sucumbo-me aos seus minutos infinitos.

    caço o que não é quieto, mas
    tampouco murmúrio
    o que não é parado, mas
    nem por isso mecânico.

    o que não é opaco, muito
    menos límpido,
    lúcido, lírico.

    Henrique Sater – julho/2014

  • É preciso estar silêncio pra eu não ficar aflito / Mas em mim existe um grito / Que eu não posso mais calar

    É preciso estar escuro pra eu poder dormir em paz
    Mas em mim há uma luz que não sei como apagar
    Eu canto incontido cortando o escuro
    Sexto sentido saltando o muro

    É preciso estar silêncio pra eu não ficar aflito
    Mas em mim existe um grito
    Que eu não posso mais calar
    Mundo mandala mudando o impuro
    Tempo tempero tecendo o futuro

    Lua cheia na varanda
    Rio da mente deslizar
    Ai estrelas me respondam
    Como eu posso descansar

    Sexto Sentido – Itamar Assumpção

  • Por que a poesia de rabo preso sem poder se operar e, operada, polimórfica e perversa, não pode travestir-se?

    Exterior – Waly Salomão

    Por que a poesia tem que se confinar?
    às paredes de dentro da vulva do poema?
    Por que proibir à poesia
    estourar os limites do grelo
    da greta
    da gruta
    e se espraiar além da grade
    do sol nascido quadrado?

    Por que a poesia tem que se sustentar
    de pé, cartesiana milícia enfileirada,
    obediente filha da pauta?
    Por que a poesia não pode ficar de quatro
    e se agachar e se esgueirar
    para gozar
    – carpe diem! –
    fora da zona da página?

    Por que a poesia de rabo preso
    sem poder se operar
    e, operada,
    polimórfica e perversa,
    não pode travestir-se
    com os clitóris e balangandãs da lira?

  • Eu queria ser demente na varanda de meu pai mijar nas flores, sorrir da lua como um louco

    http://farm5.static.flickr.com/4135/4853607904_a5b6402ce6.jpg

    (Carlos Carah – ilustração)

    Anima – José Carlos Capinam

    Existe uma menina onde meu coração é doce

    Voz marítma selvagem eu guardo

    o hálito da vítima o branco vestido e o traço

    do rosto dramático, dela

    do outro

    e do meu um pedaço. (mais…)

  • meu ar de dominador dizia que eu ia ser seu dono

    Meu ar de dominador dizia que eu ia ser seu dono

    E nessa eu dancei! Hoje no universo

    Nada que brilha cega mais que seu nome

    Fiquei mudo ao lhe conhecer, o que vi foi demais, vazou

    Por toda selva do meu ser, nada ficou intacto

    Quem não tem pra quem se dar, o dia é igual à noite

    Tempo parado no ar, há dias, calor, insônia, oh! noite

    Quem ama vive a sonhar de dia, voar é do homem

    Vida foi feita pra estar em dia, com a fome, com a fome, com a fome

    Minha vida por inteiro eu lhe dou

    Minha vida por inteiro eu lhe dou –

    Djavan

    http://grooveshark.com/s/Boa+Noite/3noVZJ?src=5

  • há uns olhos além da frágil realidade

    Texto

    Afonso Henriques Neto – disponível aqui

    Oh espina clavada en el hueso
    hasta que se oxiden los planetas
    FEDERICO GARCÍA LORCA

    O texto, escura escama, pesadelo de eternidade,
    máscara densa do universo vomitando.
    O texto, mas não a energia que o pensou,
    interrogando a simultaneidade absoluta.
    Há uma esperança nas ruas, nas pedras, no acaso
    de tudo, uma esperança, uma forma suspensa
    entre o aparente e a essência, entre o que vemos
    e a substância, uma esperança, uma certeza talvez
    de que o rio não se dissolva no mar, de que
    o ínfimo, o precário, a voz, a sombra,
    o estalar das carnes na explosão
    não se dispersem no todo, impensável medusa da inexistência.
    Há uma luz qualquer sonhando integração, o suposto
    destino dos ventos, das energias globais, a suposta
    sabedoria com que o homem fecundou a crosta
    envenenada do planeta, há uma luz qualquer
    ensaiando águas pensadas no eterno esvair-se,
    abstrato expansionário, há uns olhos além
    da frágil realidade, da terrível matança, da
    cruel carnificina entre seres pestilentos aquém
    da fronteira do sonho, um texto além do texto,
    uma esperança talvez, enquanto somos e nos cumprimos,
    enquanto somos e nos oxidamos, enquanto
    somos e prosseguimos.

  • “um poeta não se faz com versos”

    o poeta se faz do sabor
    de se saber poeta
    de não ter direito a outro ofício
    de se achar de real utilidade pública
    no cumprimento de sua missão sobre a terra
    escrevendo tocando criando
    o que pesa é não se achar louco
    patético quixote inútil
    como quem fala sozinho
    como quem luta sozinho
    o que pesa é ter que criar
    não a palavra
    mas a estrutura onde ela ressoe
    não o versinho lindo
    mas o jeitinho dele ser lido por você
    não o panfleto
    mas o jeito de distribuir
    quanto a você meu camarada
    que à noite verseja pra de dia
    cumprir seu dever como água parada
    fica aqui uma sugestão:
    – se engaveta junto com os seus sonetos
    porque muito sangue vai rolar e não
    fica bem você manchar tão imaculadas páginas.

    Ricardo de Carvalho Duarte, ou Chacal

  • ando chorando à toa

    ando chorando à toa
    não sei o que tem me dado
    um canto meu peito entoa
    cheio de dor e de enfado.

    ando gritando e ecoa
    não sinto ninguém do meu lado
    um tanto eu quero que doa
    sentir que tem algo errado.

    ando parando a canoa
    brigo com quem tem remado
    imóvel o mar me enjoa
    remando fico desnorteado.

    ando cansando à toa
    ficando de pé ou sentado
    a voz triste, mal soa,
    só não posso ficar calado.

    Henrique Sater – 19/3/14

  • não sou eu.

    Amante da Algazarra
    Waly Salomão

    Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
    É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto.
    É ela !!!
    Todo mundo sabe, sou uma lisa flor de pessoa,
    Sem espinho de roseira nem áspera lixa de folha de figueira.

    Esta amante da balbúrdia cavalga encostada ao meu sóbrio ombro
    Vixe!!!
    Enquanto caminho a pé, pedestre — peregrino atônito até a morte.
    Sem motivo nenhum de pranto ou angústia rouca ou desalento:
    Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
    É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto
    E se apossou do estojo de minha figura e dela expeliu o estofo.

    Quem corre desabrida
    Sem ceder a concha do ouvido
    A ninguém que dela discorde
    É esta
    Selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde.