Categoria: Poemas

  • é lucidez desatino

    “É lucidez, desatino,
    De ler no próprio destino
    sem poder mudar-lhe a sorte…”
    Maldição – Maria Bethânia
  • vovó devia ter avisado

    CIMG0556

     

    VOVÓ DEVIA TER AVISADO

    tarde demais, tarde demais, a promoter que jogava ovos
    podres nos travecos putas e camelôs das calçadas
    de Copacabana descobriu que o carro zero
    os contatos descolados o duplex quitado
    e a convivência com celebridades não
    impediriam o almoço dos vermes
    no cemitério do caju

    Ademir Assunção

  • deus me salve da idade madura

    armadura

    ARMADURA EM CARNE MOLE

     

    deus me salve da idade madura,

    e me sirva o que passa, a brisa

    que perdura, gesto escrito com

    brasa, pintura além da moldura,

    deus me salve, não me serve, o

    amarelo que logo apodrece, a boca

    coberta de musgo, não é isso

    que almejo, os cravos de Cristo, o fraco

    pulso do amortecido, persigo

    o que persiste, no ontem,

    no quando, no não-sei-onde, um

    texto-percevejo, traça que rói

    a couraça, torre de onde avisto

    e percebo, o não-visto que sempre

    provo, quanto menos prosa

    trovo, a língua que travo

    trinca, recolho vida em verso, e

    transmuto treva em rosa

    Ademir Assunção

    do livro A voz do ventríloquo (2012)

  • ponto

    minto que
    sei ser mito

    penso no que
    nunca peço

    mostro que
    sei ser monstro

    parto sem
    nenhum pranto

    mato sem
    sujar meu manto

    morro com
    nada e pronto

    ponto.

    Henrique Sater – 04/02/2014

  • nem vem

    Hoje não tem nada disso, de ser feliz por aí
    hoje eu não quero comicio, aqui
    dentro de mim não existo, sinto que fui e parti
    dos meus compromissos já me esqueci
    hoje não tem nem perdão
    nem pai, nem mãe, nem irmão
    nada de ser guardião dos meus
    hoje não tem solução e nem problemas também
    nem rico, nem pobretão, nem vem
    hoje não tem violão, não toco samba cançao
    não quero nem discussão, nem vem.
    Sérgio Sampaio

  • mudança

    mudanca

     

    dois anos pra tentar se ajeitar
    dois dias pra correr e desmontar
    dos panos que eu botei pra secar
    e as pias que eu ajudei a lavar.

    das simples rimas que terminam em “ar”
    das longas prosas que tiraram meu ar
    das obras primas que eu não pude inventar
    das belas rosas que eu esqueci de plantar.

    dos canos que eu tentei consertar
    das quinas que eu cansei de esbarrar
    dois anos que eu não pude esperar
    duas sinas que aprenderam a se amar.

    Henrique Sater – 29 de janeiro de 2014

  • o que é que eu fiz de mal

    queeufiz

    fico perguntando que que eu fiz de mal
    choro parecendo juízo final
    dívidas são tantas, milhares de broncas
    prestação de contas, everybody now.

    o que mais to lendo é nota fiscal
    choro, vou sofrendo dor profissional
    grito “de que adianta grana a contagotas?”
    itamar é contra excesso de sal
    excesso de sal.

    se tô assistindo jornal nacional
    choro soluçando, grito no plural
    tô compondo mantras sobre minhas plantas
    sobre chutas santas, sobre o escambau.

    sigo remoendo pela capital
    choro muito vendo assalto em sinal
    coração aguenta, mas nem sou atleta
    isso é uma afronta, isso é amoral
    isso é amoral.

    durmo desvairando noite de hospital
    choro reclamando feito terminal
    pago minhas contas, ninguém me desconta
    nada me encanta nem o carnaval
    não tô entendendo quantos são os paus pra canoa
    eu choro remando contra o vendaval

    engulo pimenta
    não poupo a garganta
    esse pó não assenta
    o que é que eu fiz de mal?

    fico perguntando: que que eu fiz de mal?

    itamar assumpção e alzira espíndola

  • menino

     

    mancha

    Surge do destino
    no começo, parece um menino
    muito quieto, franzino.

    Prudente, sem alarde
    Não machuca, não arde
    Cresce toda manhã, não diminui de tarde.

    Até que a ciência o desvenda
    Ganha o fato, larga a lenda
    É dito como encomenda

    A conversa com o doutor
    Dizem: precisa de amor
    Diagnóstico terminal: tumor.

    7/12/2009 – Henrique Sater

  • todos nós temos nossos problemas

    sinal

    67-1556

    todos nós
    temos nossos problemas

    alguns maiores
    alguns menores, ele disse

    noite negra negro dia
    um príncipe negro e sua voz:

    anúncios presságios quem sabe
    negras profecias

    sem amor sem dor sem temor
    também não espero um sinal

    hóstia partida
    tribo desfeita (sinal no vento)

    apenas danço e vejo
    danço e vejo

    ping-pong patético
    nenhum abraço nesse estio (sinal dos tempos)

    um telefone um número s.o.s.
    um minúsculo vazio

    entre um lado e o outro
    do mesmo fio

    Ademir Assunção
    Poema do livro LSD Nô (1994)

    http://www.youtube.com/watch?v=2Ey7ljJf_Cs

  • lágrimas para as cebolas

    7706248242_ca5252f0ef_z(foto: mackincheese)

     

    alma de papoula

    lágrimas
    para as cebolas

    dez dedos de fada

    caralho
    de novo cheirando a alho

    alice ruiz