Categoria: Poemas

  • dor não é amargura.

    Adélia Prado
    Quando nasci um anjo esbelto,
    desses que tocam trombeta, anunciou:
    vai carregar bandeira.
    Cargo muito pesado pra mulher,
    esta espécie ainda envergonhada.
    Aceito os subterfúgios que me cabem,
    sem precisar mentir.
    Não sou feia que não possa casar,
    acho o Rio de Janeiro uma beleza e
    ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
    Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
    Inauguro linhagens, fundo reinos
    — dor não é amargura.
    Minha tristeza não tem pedigree,
    já a minha vontade de alegria,
    sua raiz vai ao meu mil avô.
    Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
    Mulher é desdobrável. Eu sou.

  • a brisa esfola o escalpo dos credores

    cavalos de exu trancam as ruas, escopetas
    cospem línguas de fogo, o mar avança
    sobre as marquises dos bancos, coiotes atacam
    pastores nos templos, caem as muralhas
    dos shoppings de Tebas, a brisa esfola
    o escalpo dos credores, o sol mergulha
    num ocaso de trevas, pilantras se ferram
    na noite de horrores, ferve no inferno
    o sangue dos larápios, centauros libertam
    reféns nas UTIs, os gângsteres
    dos planos de saúde são devorados, os cabos
    das tevês estão todos cortados.

    ademir assunção – a noite dos exus

  • não se permite nunca mais olhares tensões de cismas crises e outros tempos

    Literato cantabile

    Torquato Neto

    agora não se fala mais
    toda palavra guarda uma cilada
    e qualquer gesto pode ser o fim
    do seu início
    agora não se fala nada
    e tudo é transparente em cada forma
    qualquer palavra é um gesto
    e em minha orla
    os pássaros de sempre cantam assim,
    do precipício:

    a guerra acabou
    quem perdeu agradeça
    a quem ganhou.
    não se fala. não é permitido
    mudar de idéia. é proibido.
    não se permite nunca mais olhares
    tensões de cismas crises e outros tempos
    está vetado qualquer movimento
    do corpo ou onde quer que alhures.
    toda palavra envolve o precipício
    e os literatos foram todos para o hospício
    e não se sabe nunca mais do mim. agora o nunca.
    agora não se fala nada, sim. fim. a guerra
    acabou
    e quem perdeu agradeça a quem ganhou.

  • ela é dura, Carlos, ela não morre.

    fogo

    A caçada

    “Poesia, o perfume que exalas é tua justificação.” –  Carlos Drummond de Andrade

    “Piso no rabo dela, ela escapole.

     

    (…)

    Pé ante pé me achego, é preciso um subagir de gato pra pegar a ladrona.

    (…)

    Eu, às vezes, fico duas horas de relógio sem fazer nada, ou então desmancho e torno a fazer um barracão, num dia. Tudo truque, disfarce pra pegar ela distraída.

     

    (…)

    Qualquer negócio eu faço pra conseguir o laço certo. Fiz de fita de pano, ela disse com sua vozinha: quero fita de prata.

     

    Fiz de prata, ela disse: quero fita de ouro. Fiz de ouro, ela nem liga. Ela é homem andrógino? Ela é de Deus. Ela parece vida de santo, sem riqueza, sem pompa, sem os brilhos, mas dura, parecendo meio louca, tão serena.

     

    Sabe onde a vi outro dia? Num monte de cisco. Como a conheço bem , não fiz nada. Só busquei mais lixo e pus por cima, com cuidado: uma lata, cascas, papéis, tripa de galinha e penas.

     

    Ela ficou lá refestelada, tomando sol. Virava de bruços, de costas, eu, de cá, apreciando. Comi um cacho de bananas, um bule de café, de litro, enquanto aproveitava, bem pertinho.

     

    Quando cansei, pus fogo no monturo e fui pró meu quarto, me refazer. Pois ela pousou na janela e ficou me olhando, quase boa: uma cinzazinha à-toa, pozinho de carvão que o vento trouxe.

    Ela é dura, Carlos, ela não morre.”

     

    Adélia Prado – Solte os cachorros

     

  • um diamante gerado pela combustão, como rescaldo final de incêndio.

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    “Minha alegria permanece eternidades soterrada
    e só sobe para a superfície
    através dos tubos de filtros alquímicos
    e não da causalidade natural.
    Ela é filha bastarda do desvio e da desgraça,
    minha alegria:
    um diamante gerado pela combustão,
    como rescaldo final de incêndio.”

    minha alegria – waly salomão

  • tudo sentir total é chave de ouro do meu jogo

    lince

    quem fala que sou esquisito hermético
    é porque não dou sopa estou sempre elétrico
    nada que se aproxima nada me é estranho
    fulano sicrano beltrano
    seja pedra seja planta seja bicho seja humano
    quando quero saber o que ocorre à minha volta
    ligo a tomada abro a janela escancaro a porta
    experimento invento tudo nunca jamais me iludo
    quero crer no que vem por aí beco escuro
    me iludo passado presente futuro
    urro arre i urro
    viro balanço reviro na palma da mão o dado
    futuro presente passado
    tudo sentir total é chave de ouro do meu jogo
    é fósforo que acende o fogo da minha mais alta razão
    e na seqüência de diferentes naipes
    quem fala de mim tem paixão

    Waly Salomão – Olho de Lince

  • Quizá mi única noción de patria sea esta urgencia de decir Nosotros

    benedettiCuando resido en este país que no sueña
    cuando vivo en esta ciudad sin párpados
    donde sin embargo mi mujer me entiende
    y ha quedado mi infancia y envejecen mis padres
    y llamo a mis amigos de vereda a vereda
    y puedo ver los árboles desde mi ventana
    olvidados y torpes a las tres de la tarde
    siento que algo me cerca y me oprime
    como si una sombra espesa y decisiva
    descendiera sobre mí y sobre nosotros
    para encubrir a ese alguien que siempre afloja
    el viejo detonador de la esperanza.

    Cuando vivo en esta ciudad sin lágrimas
    que se ha vuelto egoísta de puro generosa
    que ha perdido su ánimo sin haberlo gastado
    pienso que al fin ha llegado el momento
    de decir adiós a algunas presunciones
    de alejarse tal vez y hablar otros idiomas
    donde la indiferencia sea una palabra obsena.
    (…)

    Quizá mi única noción de patria
    sea esta urgencia de decir Nosotros
    quizá mi única noción de patria
    sea este regreso al propio desconcierto.

    Mario Benedetti – Noción de Patria

  • Prometi nunca render-me ao verso fácil.

     

    sorrisoA RAZÃO DO POEMA

    Prometi nunca render-me
    ao verso fácil.
    À poesia-nuvem
    fluida substância sem contorno.
    Não fuja do meu sangue o verso vago,
    alheio ao barro amargo do Tempo.

    Eu quis o gume,
    a aresta,
    o vinco.

    Recusei o lírio
    das feiras semanais das flores mortas.

    Eu quero um poema-dor,
    arrancado aos pedaços
    da carne da vida.
    Aqui está ele
    sangrando meus dedos
    no cimento da cela.

    A poesia não marca hora.
    Hoje, como há trinta anos,
    está nos jornais.
    Foi pisada,
    cuspida,
    torturada:
    contra todas as formas de morte
    floresce.

    Eu a encontrei num dia de chuva,
    durante o combate.
    Trazia um vento de Liberdade na boca
    e a metralhadora nas mãos.

    Ensinou-me o fogo
    e a palavra.
    Lavrou-me nos pés o roteiro
    dos caminhos que percorrerei:

    nenhuma dor visite a cada de meu irmão
    sem se fazer lágrima nos meus olhos.
    Nenhuma investida dos cavaleiros da morte
    será silenciada.
    E se vier a tortura, ou a morte,
    a marcha para o sol reuniá
    os pedaços dispersos do meu corpo…
    E o canto do Povo sobre a cidade aberta
    não me surpreenderá adormecido.

    Pedro Tierra – A palavra contra o muro

  • Que a sobre-humana poesia pica e envenena um homem.

    caran

    Deslizo,
    oculto aqui,
    vigiando o oco do tempo.
    Espaço ermo, parado.
    Nada acontece. Nada parece acontecer.
    Mas algo flui, o irremediável,
    queimando todas as pontes de regresso.
    Todo o passado está morto;
    só vige o que vem, o que surge.
    Todas as coisas íntegras dilaceram-se
    ou são dilaceradas.
    A velha senhora viajada,
    detentora de recorde de milhagens,
    temerosa das vacas do Ganges
    depois de ter contemplado um berne
    ao microscópio.
    Berne que agora corrompe e torna pútrida
    qualquer carne verde que ela vê
    pois seu olho holografa
    o esqueleto subjacente a todo corpo vivo.
    Viver em mudança.

    O assoalho repleto das peles velhas das cobras
    e do pêlo felpudo das aranhas caranguejeiras.
    Viver em mudança.
    Que a sobre-humana poesia pica e envenena um
    homem.

    Waly Salomão (1994 – Algaravias)